5/09/2013

Quem tem razão, mãe ou filha?

 

 

 

"Uma é mãe, a outra é filha. Uma, a extensão da outra, difícil destino que se entrelaça,

revolta, recusa-se, esperneia, reflete-se, trapaceia. Uma é a outra amanhã, outra foi

aquela ontem. Uma sabe, intui, adivinha o que a outra esconde, inverte, imita, finge que

não é. Uma menina, outra mulher.

Brincando de casinha de boneca, procurando estrela do mar, fazendo castelo,

aprendendo a nadar.

-Não quero comer, não quero.

-Come os legumes, eu espero. Olha só o aviãozinho. Anda, vai logo, come, se não, o

aviãozinho some!

À noite a mãe conta história. A filha tem medo da bruxa.

-Que maldade, mamãe, puxa!

-Não tem que se preocupar! Branca de Neve caiu dura, mas chega o Príncipe e a coisa

toda muda de figura!

Se a mãe sai, a filha lhe deixa bilhetes presos na parede e fica esperando a mãe,

balançando-se na rede.

-Espera, não lê agora. Ainda não está na hora. Assim que a gente deitar, você pode

começar.

Saem, riem se completam. Não querem saber de ninguém. Ficam as duas muito bem.

A mãe veste a blusa da filha, a filha, a saia da mãe. Mães e filhas refletidas numa

inversão divertida.

Mas a filha vai crescendo e a mãe nem vai percebendo.

A mãe corta o cordão umbilical da filha quando nasce. A filha, quando adulta, corta os

laços. A mãe, pra existir, se dá à filha. A filha, pra poder viver, a rejeita.

Em que momento da vida deixaram de ser cúmplices? Quando é que pararam de se

divertir? Contar histórias? Trocar de roupa, rir? Desde quando que a mãe chora?

Quando é que a filha foi embora?

Uma já viveu, ao seu modo o que a outra vive agora.

A filha é a criança da mãe. A mãe, o super-ego da filha.

A filha se enche de inpaciencia diante da mãe, a mãe, de dor pela filha. Ambos os

sentimentos se extrapolam em ninharias ridículas. Uma fez isso, outra, aquilo. Uma agiu

assim, outra assado.

-Olha, mãe, tudo acabado.

-Quem tem razão, as mães ou as filhas?

A filha não agüenta mais nada. A mãe sempre agüenta mais uma. As dores são ondas

que oscilam de intensidade. Uma ou outra mais forte, tira-lhe o fôlego, joga-a no chão.

Nada que não a faça voltar à tona, ver de novo a onda verde, retomar a respiração.

A filha nada contra a mesma maré que um dia embrulhou a mãe. A mãe estende-lhe a

mão, delicada.

A filha recusa, indignada..

-Me deixa nadar sozinha.

Sempre a mesma ladainha...

Quantas ondas grandes a mãe teve que furar? Quantas arrebentações driblar? Onde

estará ela, a filha? Ali boiando, esquecida, e a mãe a se preocupar que se afogue, nas

ondas verdes da vida.

-Me empresta o carro pra eu ir à festa?

-Por que não põe uma roupa mais transada, uma blusa decotada, um vestido de outro

tom? Minha filha, não acredito: cê vai sair sem baton?

-Ai, meu saco, vou-me embora. Dá pra me emprestar agora?

-Depois dorme aqui, vê se come...

-Esquece. Não quero ficar.

-Pena...tinha tanta coisa pra contar...

-Ora, mãe, pára de fazer drama. Ce quer mesmo é cair na cama...

-Vai de novo viajar?

-E você, me controlar? Saco! Ta mais que na hora! Escuta, mãe, vou-me embora..

-Não esquece de apagar a luz, fechar a porta...cuidado com a violência...

-Ai, mãe, tenha paciência...

Em cima da mesa um bilhete: “mãe, desculpe o mau humor, mas é que eu ando uma

pilha!”

Quem tem razão? As mães ou as filhas?"

 

De Maria Lúcia Dahl

 

Com carinho

Assim como Árvore

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